sábado, 12 de maio de 2012

Pesadelo Sem Fim


Uma manhã nebulosa e fria iniciava aquele dia. Ele saía para o trabalho. O céu começou a escurecer novamente em vez de clarear mais com a luz do sol por trás das nuvens. Os passos ficaram lentos e todo o frio na pele desaparecera. Diante dos olhos somente uma imensidão negra e sem fim, o tato desligado e a audição confusa colapsam o equilíbrio. A consciência não é mais perceptível nem controlável e o tempo não está presente.
- Acorde, Verme!
Arames farpados envolvem seu corpo e causam a criação de miúdas gotas de sangue sobre  a pele furada. Talvez sem sentir muita coisa, ele tenta se libertar, mas uma dor aguda o paralisa.
- São bons para enrolar mais a cada vez que você tentar escapar, é só ficar parado que sua vida vai ser um instante menos doloroso a partir de agora.
- Mas... Quem é você? O que é aqui?
 A pergunta desorientada marca o retorno de si ao corpo. Ele tenta imaginar o que seria aquela situação.
- A pergunta correta seria quem é você, e não eu. Pois eu sou apenas um ninguém e você um devedor de justificativa.
- Seu merda! Me tira logo disso para eu mandar matarem você!
- Isso, comece a liberar seu nojento e covarde instinto humano. Vou lhe contar uma história: Há um tempo, um verme que tinha dinheiro mandou matar minha esposa por conta de concorrência comercial entre as lojas da localidade. A imagem dela segurando minha mão e tentando respirar engasgada com o sangue nunca mais saiu da minha cabeça...
- Mas eu não sei do que você fala, seu psicopata, vai pro inferno e tira essa porra de arame daqui!
- É mesmo, até no leito de morte, diante do trono do julgador final, o maldito ainda nega, talvez por vergonha ou covardia, todos os seus pecados.
- Mas que merda é essa? O que está acontecendo aqui?
- Ah, isso é o seu relógio, ele marca o tempo que você tem para viver. Preso com uma corda em seu ponteiro de minutos, ele gira, puxando aquele pequeno pote com gasolina. Depois de aproximadamente 20 minutos, vai derrubá-la e quando escorrer por cima de você, vai cair no chão e essas velas ali, viradas, não estão caídas por descuido meu...
O sistema de polias sustentava um balde cheio do líquido do inferno pronto para escorrer até o fogo e incendiar o corpo. O desespero fez com que ele enfrentasse as farpas e se rasgasse por entre os fios de ferro com espinho para sair da armadilha brutal.
 As farpas não eram necessariamente grandes para perfurar os tecidos abaixo da derme, então ele conseguiu correr todo envolto em seu próprio sangue, mas sem danos internos.
- Aonde você vai, ratinho?
Um rosto sem face o perseguia pelas ruas desérticas. era possível ver a faca na mão e a capa preta, que tinha um efeito de transparência, como fumaça. Ainda era noite, e os postes todos estavam acesos, mas não clareavam quase nada. Uma pedra parecia ter aparecido do nada na frente do pé do fugitivo desesperado. Um grito de ajuda e uma queda. De frente para a sombra, o tremor era tão forte, que era possível ouvir os dentes batendo.  O homem sem face não esfaqueia, e sim enrola um dos pés do caído numa corda, e com a força de um trator, o arrasta pela grama. Os gritos de socorro parecem mais urros que não são ouvidos.
- Tá bom! Eu matei aquela vadia! Eu fiz tudo o que a minha inveja mandou, ela implorou para eu ter piedade, mas eu a fiz sangrar até não ter mais voz para gritar! É isso que queria ouvir? Isso? Agora porque não me levanta e luta seu animal?
A voz roca responde friamente: - Já estou fazendo isso.
Uma faca é dada na mão dele, o pé, desamarrado.
- Faça o que o seu ódio profano quer! violência é a base do respeito! Intimidação é a da obediência! Riqueza é a da amizade! Vá! Solte seus valores diabólicos! Poder é a base da segurança?
 O homem esfaqueia o peito do encapuzado, umas cinco, dez, trinta e seis vezes. Na trigésima sétima, ele nota que não é nada além de um golpe no vazio.
- Você é tão material, que seu espírito evaporou para o inferno mesmo antes de você morrer!
- Você é um fantasma? A morte? o Demônio? Hahahaa! Vou acordar e vou rir d você! Seu lixo de fantasia de criança! Você não assusta nem bebê hoje em dia! Pesadelo idiota!
A respiração se altera. A faca está encravada no seu peito. Cai de joelhos e dá um grito estridente de dor. o sangue escorre pela boca e cai no chão sobre o capim seco, que se move como tentáculos puxando para que a terra seca o trague para baixo.
- Não sou a morte, você não está morrendo. Anida.
Uma paisagem esbranquiçada e gélida toma o seu redor. Debaixo de metros ou quilômetros de terra há mesmo um submundo.
- Não consegue morrer?? A dor é tão forte, mas você nem pode morrer... Sem opção, você simplesmente tem que sentir toda ela.
De um vulto vermelho a uma explosão de chamas, em uma fração de segundo o lugar se incandesceu. Uma voz maligna gritava gargalhadas aterrorizantes.
- Este é meu? - Dizia a voz do fogo.
- Ainda não, senhor, este aqui ainda é meu. - Respondeu o homem sem rosto.
O chão ardia e queimava a pele sobre ele. O homem rasgava a garganta de tanto gritar. O sangue caía como saliva. Lágrimas vermelhas caiam e evaporavam. A mão veio em sua direção, atravessou sua cabeça e tudo então tornou- se cinza. Era a manhã nublada.
Os olhos se abrem. Finas gotas d'água caem sobre o corpo. A dor vem também e uma gargalhada estremece os céus. Um homem de casaco se aproxima, oferece ajuda.
- O que houve? Meu Deus, você está muito ferido! Nunca vi algo assim!
Em meio à agonia, ele estende a mão, e quando o ferido consegue erguer o braço para segurá-la, ele retira a mão e põe o capuz fechando a visão do rosto.
É uma fria manhã nebulosa. Ele se levanta para ir trabalhar, pega as calças, passa a camisa, come um pão e vai fazer a barba. O espelho mostra sua pele como um mosaico de cicatrizes. As pessoas da rua puderam ouvir o grito de pavor.

O Fantasma

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